IA física dá percepção e raciocínio a equipamentos | Tecnologia corporativa


Robô quadrúpede que está sendo testado pela Pollux Automation para utilização em tarefas de inspeção industrial — Foto: Divulgação
Robô quadrúpede que está sendo testado pela Pollux Automation para utilização em tarefas de inspeção industrial — Foto: Divulgação

A inteligência artificial começa a ultrapassar as fronteiras do ambiente digital para atuar no mundo concreto. Conhecida como IA física (“physical AI”), essa tecnologia consiste na aplicação da inteligência artificial em robôs, máquinas, drones, veículos e outros dispositivos, tornando-os capazes de perceber o ambiente, tomar decisões em tempo real e executar tarefas com mínima intervenção humana. Áreas que já se beneficiam são indústria, agronegócio, varejo, saúde e logística.

“A IA generativa com bots como Gemini e ChatGPT faz coisas incríveis, mas opera no mundo digital. O nosso mundo, porém, é físico, definido pelo conceito de espaço-tempo”, explica Fernando Osório, coordenador do Centro de Robótica da Universidade de São Paulo (USP) São Carlos.

Segundo ele, chatbots falham em compreender a continuidade, as relações espaciais e a evolução de estados necessárias para predições precisas. “Se queremos uma inteligência que reproduza a humana, ela obrigatoriamente tem que ser física”, afirma.

Marcio Aguiar, diretor para a América Latina da divisão enterprise da Nvidia, gigante que fornece infraestrutura computacional para IA, aponta que a tecnologia reúne técnicas de “machine learning”, “deep learning”, IA generativa, IA perceptiva e IA agêntica. “É uma combinação para que diversos equipamentos tenham capacidade de percepção, raciocínio, reação e tomada de decisão para executarem ações no mundo real.”

Impulsionado pela crescente escassez de mão de obra e a necessidade de maior eficiência operacional, o mercado global de IA física movimentou, em 2025, US$ 5,4 bilhões, de acordo com a consultoria Towards Healthcare. A previsão é que alcance US$ 82 bilhões até 2035, expandindo a uma taxa composta de crescimento anual (CAGR) de 31,26%.

Em relatório, o Instituto de Pesquisa da Capgemini, multinacional focada em analisar o impacto de tecnologias emergentes nos negócios, revela que 79% das organizações com receita anual superior a US$ 1 bilhão de 16 países da América do Norte, da Europa e da Ásia-Pacífico já utilizam a IA física.

José Rizzo Hahn Filho, fundador e diretor da Pollux Automation, que implementa projetos com a tecnologia, ressalta que, embora o Brasil não esteja no centro do desenvolvimento global, possui alto potencial como usuário.  “Essa, inclusive, é uma oportunidade de reduzirmos a distância que temos em relação aos países desenvolvidos”, salienta, complementando que a primeira onda da IA física será para suprir a falta de mão de obra nas fábricas. “Os robôs, principalmente, vão ocupar postos de trabalho que as indústrias não conseguem preencher, e ainda vão executar as atividades de maneira mais eficiente, precisa e com mais segurança que os humanos.”

Aguiar observa que o Brasil possui startups e centros de pesquisa desenvolvendo soluções nessa área, mas tende a absorver as inovações à medida que elas amadurecem globalmente.

Estamos vivendo um momento inédito, de uma autonomia que não existia antes”

— José Hahn Filho

Apesar do grande potencial de transformação, a implementação da IA física apresenta desafios: falta de mão de obra especializada, investimento elevado, disponibilidade de dados de qualidade e integração com sistemas existentes.

Ainda há a questão ética, envolvendo a autonomia das máquinas. “Estamos vivendo um momento inédito, de uma autonomia que não existia antes, e vamos ter de acompanhar com cuidado, sobretudo quando chegarem os robôs humanoides”, observa Hahn Filho.

Outro ponto de discussão é se a tecnologia substituirá o trabalho humano. Os especialistas consultados observam que ela tende a ser um complemento ao assumir tarefas repetitivas, pesadas ou de maior risco.

Um setor que já adota IA física é o automotivo. A Volkswagen, por exemplo, conta com diversas aplicações em seu processo produtivo. Em estamparia e pintura, o sistema Smart Inspection, por meio de IA, analisa o serviço e, caso note alguma não conformidade, toma a decisão e envia um alerta a uma tela para que o operador cuide das providências.

“Além da assertividade, as avaliações por IA ocorrem em tempo real, garantindo eficiência e velocidade. Outra vantagem é o armazenamento e a rastreabilidade de dados, permitindo que o sistema evolua em suas análises e ofereça suporte para a melhoria contínua”, diz Valdomiro Alves Cerqueira, gerente-executivo de planejamento estratégico da montadora.



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