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O que parecia uma invenção de Hollywood começa a se tornar realidade. No filme “As Patricinhas de Beverly Hills”, lançado nos anos 1990, um guarda-roupa inteligente ajudava a protagonista a escolher o que vestir. Hoje, startups e gigantes de tecnologia levam essa experiência aos consumidores graças a softwares – com inteligência artificial – capazes de sugerir combinações, simular provas virtuais e indicar peças a partir do que a pessoa já tem no armário ou de produtos disponíveis na internet.
A startup brasileira Doris.AI é uma das empresas que apostam nessa nova fronteira da moda. A companhia desenvolveu um aplicativo que simula o caimento das roupas e sugere novas combinações. Para isso, o usuário precisa tirar fotos do próprio corpo e das peças que já possui no armário. Ele também pode pedir para o software fazer buscas na internet de “looks” à venda. Com base nesses dados, a IA é capaz de fazer recomendações e, conforme o consumidor dá retorno sobre as sugestões, a ferramenta aprende as preferências e se torna mais assertiva.
À frente da startup está Marcos de Moraes, empreendedor que participou da criação da Zip.net – um dos principais portais da internet brasileira no fim dos anos 1990, vendido posteriormente por US$ 500 milhões – e fundador da marca de cachaça premium Sagatiba, adquirida pela Campari em 2011 por US$ 26 milhões. Agora, ele aposta no avanço da IA como uma transformação comparável ao nascimento da internet. “Eu tinha uma certeza de que jamais veria nada igual ao nascimento da internet novamente. Que bom que estava errado”, diz.
Inicialmente desenvolvida para oferecer provadores virtuais a varejistas de moda, como Reserva e Zapalla, a Doris mudou de estratégia com a evolução da IA e passou a focar o consumidor final. Ao todo, já foram investidos cerca de R$ 45 milhões no desenvolvimento da plataforma, e a empresa iniciou conversas com fundos, principalmente internacionais, para a expansão.
“O e-commerce ficou velho”, diz Moraes. Para ele, os sistemas atuais ainda são fragmentados, com recursos separados para provador virtual, recomendação de produtos e medidas corporais. A Doris pretende concentrar essa jornada em um único aplicativo.
Logo após o lançamento da versão beta em maio, disponibilizada inicialmente por convite, o aplicativo registrou mais de 100 mil downloads, alcançou 53 mil usuários ativos, acumulou 1,8 milhão de provas virtuais (“try-ons”) e criou mais de 100 mil avatares digitais. Segundo a empresa, a meta de usuários prevista para setembro foi alcançada nas primeiras semanas de operação.
A expectativa é acelerar o crescimento neste segundo semestre por meio de influenciadores e ações de marketing, a fim de ganhar escala. A empresa espera fechar 2026 com faturamento de US$ 100 mil e projeta atingir o ponto de equilíbrio financeiro em 2028, quando as receitas devem compensar as despesas da operação.
A movimentação em torno do guarda-roupa digital, entretanto, não se restringe às startups. O Google também investe nessa frente com o Provador Virtual, recurso disponível no ecossistema do Google Shopping que permite experimentar virtualmente roupas e calçados a partir de uma foto do usuário. A ferramenta foi lançada nos Estados Unidos no ano passado e chegou ao Brasil no fim de maio, como parte de uma expansão gradual que hoje alcança 18 países.
Segundo Ivan Patriota, que comanda a área de parcerias de comércio online do Google na América Latina, o recurso foi desenvolvido para preservar a privacidade dos usuários. “O Google armazena a foto temporariamente para permitir a experimentação contínua de peças sem fricção. A empresa não acessa a imagem, não a compartilha com terceiros ou outros serviços e não a utiliza para treinar modelos de IA”, afirma.
Segundo ele, a ferramenta está em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), é restrita a usuários com 18 anos ou mais e permite que a imagem seja excluída a qualquer momento. O recurso está disponível apenas na área de Busca, na aba Shopping e no Google Imagens. Ao escolher uma peça, o consumidor é direcionado ao site do varejista para concluir a compra. “Queremos ser a plataforma mais completa para a exibição de produtos na internet, atuando como a maior vitrine de descobertas do mundo”, diz Patriota. O Google, observa, não recebe comissão pelas vendas realizadas pelos e-commerces.
Além das grandes plataformas de tecnologia, empresas especializadas em produtos para o varejo ampliam sua atuação nesse mercado. É o caso da brasileira Sizebay, que fornece tecnologia para marcas como Dolce & Gabbana, Armani, Gucci, Netshoes e Renner. A empresa vem ampliando sua plataforma com recursos de IA, como recomendação do que vestir e provas virtuais das roupas no consumidor. Hoje, está presente em cerca de 1 mil e-commerces distribuídos em 56 países.
“A gente saiu de uma empresa de recomendação de tamanho de roupas para ajudar o consumidor a se vestir”, afirma o fundador e diretor de produto da Sizebay, Janderson Araujo. Segundo ele, a evolução começou com a indicação do tamanho ideal a partir de informações como peso, altura e idade, avançou para a sugestão de peças semelhantes e combinações de roupas e, mais recentemente, passou a permitir que o usuário veja como um produto ficará em seu próprio corpo por meio de IA. Esse movimento ganhou impulso após a união com a empresa de tecnologia focada em moda Audaces, há dois anos, que ampliou a capacidade de desenvolvimento tecnológico da Sizebay.
“O ‘try on’ nasce de uma demanda dos consumidores que querem uma experiência mais próxima da loja física. No virtual, a pessoa não pode vestir a roupa. Agora ela consegue se ver usando aquele produto”, diz Araujo. Segundo ele, a tecnologia reduz a insegurança na compra e ajuda a diminuir devoluções. “Ela ajuda o usuário a se enxergar e levar a peça para casa com menos incerteza.”
A ferramenta também envolve o processamento de imagens dos usuários, uma etapa que, segundo Araujo, segue as regras da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). “O proprietário da foto é o usuário. A imagem é processada e destruída. A gente devolve o resultado para o cliente, mas não salva a imagem.”











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