Iniciativa visa conciliar regulação, Inteligência Artificial e sustentabilidade


Foto do grupo participante do evento “Infraestrutura, inteligência e impacto: o caminho para o futuro sustentável”, realizado em Manaus

Durante o encontro de reguladores “Infraestrutura, inteligência e impacto: o caminho para o futuro sustentável”, organizado pela Anatel nesta terá, 4, em Manaus, o Instituto Climático de Inteligência Artificial (AICI) iniciou finalmente a sua fase operacional, consolidando uma parceria estratégica entre Anatel, ITU e Unesco anunciada originalmente na COP30 em Belém. A iniciativa  visa capacitar países em desenvolvimento para o uso da IA na ação climática, com termos de referência estabelecidos pelos parceiros fundadores, entre eles reguladores e instituições de fomento de vários países.

O modelo de atuação do instituto prevê workshops presenciais divididos em duas modalidades: uma voltada para audiências não técnicas, focada em fundamentos de IA e dados climáticos, e outra composta por laboratórios de implementação avançada para profissionais técnicos. O projeto será complementado por um repositório de aprendizagem digital e governado por um comitê de liderança que inclui o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, explicou o diplomata Pedro Ivo Ferraz da Silva,coordenador de  assuntos tecnológicos e científicos e relações bilaterais do Itamaraty.

Durante o evento, a Unesco destacou a importância de abordagens éticas e centradas no ser humano, enfatizando que a IA deve servir ao desenvolvimento sustentável e à dignidade humana. O órgão reforçou que a governança eficaz exige que reguladores compreendam não apenas a tecnologia, mas também suas implicações sociais, éticas e ambientais.

Carlos Baigorri, presidente da Anatel, destacou que hoje o grande desafio dos países não é apenas a regulação da Inteligência Artificial, tema que ele considera de difícil solução pelo rápido nível de desenvolvimento tecnológico. “O nosso maior desafio é preparar as pessoas a aproveitarem a Inteligência Artificial para resolver problemas e criar oportunidades”, disse. 

Paralelamente, a UIT alertou para o paradoxo do consumo energético dos centros de dados, defendendo a criação de padrões internacionais para medir o impacto ambiental dos sistemas de IA e mitigar a pegada ecológica da tecnologia. A organização sublinhou que a sustentabilidade requer medições transparentes e colaboração científica aberta para evitar o aprofundamento da divisão digital.

O debate sobre a infraestrutura digital revelou preocupações com a desigualdade no acesso, denominada como “AI divide”. Especialistas questionaram se a disparidade reside apenas na disponibilidade de hardware ou se estende à falta de competências acadêmicas, sistemas de distribuição de serviços e representatividade de dados, elementos cruciais para que a tecnologia seja transformadora.

No campo regulatório, a Anatel defendeu que a regulação deve focar nas falhas de mercado e não apenas na tecnologia, que evolui de forma acelerada e imprevisível. A necessidade de transparência no uso de dados e o incentivo à soberania digital foram apontados como caminhos para equilibrar inovação, proteção de direitos e eficiência energética .

Representantes de países como Portugal, Suriname, El Salvador, Colômbia, Cabo Verde, Uruguai, União Europeia entre outros países trouxeram perspectivas regionais sobre a implementação da IA.

Um aspecto levantado foi a importância de adaptar modelos de linguagem para línguas locais e a necessidade de infraestruturas de computação que permitam aos países do chamado Sul Global não apenas consumir, mas produzir soluções tecnológicas próprias, assim como a necessidade de treinamento de modelos de linguagem dedicados aos desafios regulatórios de conectividade. Luciano Charlita, do Banco Mundial, também mostrou também preocupação com a viabilidade econômica dos investimentos necessários para a infraestrutura de IA.

A questão da educação e capacitação foi identificada como um pilar fundamental para a sustentabilidade do ecossistema digital. Debatedores enfatizaram que a capacitação deve começar na educação básica e envolver parcerias com universidades públicas e privadas, visando criar centros de treinamento que preparem as novas gerações para o uso ético e produtivo da inteligência artificial, encerrando o painel com um apelo por esperança e soluções concretas .



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