
Depois de enfrentar enchentes históricas em 2024, São Lourenço do Sul será o primeiro município gaúcho a testar uma plataforma que utiliza inteligência artificial para identificar riscos em imóveis, pontes e prédios públicos localizados em áreas suscetíveis a alagamentos e outros eventos extremos.
A iniciativa faz parte de um projeto-piloto desenvolvido pela startup Hyven em parceria com o Gabinete de Mudanças Climáticas do Ministério Público do Rio Grande do Sul (GabClima). O objetivo é entregar ao município um diagnóstico técnico que permita antecipar problemas estruturais, definir prioridades de manutenção e fortalecer o planejamento da Defesa Civil.
Na prática, a plataforma reúne informações já existentes, como mapas de inundação, dados geológicos e planos de contingência, e cruza esses dados com inspeções realizadas em campo por engenheiros e arquitetos. Com o auxílio da inteligência artificial, o sistema organiza e analisa essas informações para indicar as condições das estruturas, apontar riscos e sugerir intervenções preventivas.
— A ideia é avaliar os riscos das casas localizadas em áreas sujeitas a alagamentos e também verificar se prédios públicos, pontes e outras estruturas têm condições de funcionar durante uma emergência. Assim, o município consegue saber onde precisa investir antes que aconteça um novo evento climático — explica o cofundador da Hyven, Lucas Alexandre Reginato.
Etapa inicial busca validar tecnologia
Por se tratar de uma prova de conceito (POC), etapa utilizada para validar a tecnologia antes de uma possível ampliação, o projeto terá alcance inicial reduzido.
Entre 10 e 15 imóveis serão avaliados nesta primeira fase, além de estruturas consideradas estratégicas para o plano de contingência do município.
As visitas técnicas devem começar em agosto. A data ainda está sendo alinhada entre a empresa, o Ministério Público e a Prefeitura de São Lourenço do Sul.
O trabalho será desenvolvido em duas etapas. Primeiro, a equipe fará um levantamento remoto utilizando imagens de satélite, mapas e documentos já disponíveis. Depois, engenheiros e arquitetos irão ao município para vistoriar presencialmente os imóveis e as demais estruturas selecionadas.
A expectativa é de que o diagnóstico seja concluído entre 45 e 60 dias após o início efetivo das atividades de campo.
Diagnóstico vai abranger imóveis, prédios públicos e cerca de 350 pontes
O estudo terá como foco imóveis localizados próximos ao Arroio São Lourenço, ao Rio Carahá e à Lagoa dos Patos, áreas historicamente mais vulneráveis às cheias.
Além das residências, a plataforma também fará o diagnóstico de escolas, unidades de saúde, prédios públicos utilizados em situações de emergência e aproximadamente 350 pontes da zona rural.
A intenção é identificar se essas estruturas estão aptas a continuar funcionando durante uma enchente ou outro desastre climático ou se precisam de obras e reforços preventivos.
Segundo o prefeito Zelmute Marten, o levantamento também deverá servir de base para a elaboração de projetos e para a busca de recursos estaduais, federais e internacionais destinados à adaptação às mudanças climáticas.
Ao final do projeto, todas as informações serão entregues ao município e ao Ministério Público.
Plataforma poderá gerar mapas para gestão e para a população
Além do relatório técnico, a ferramenta deverá disponibilizar diferentes tipos de mapas.
Um deles será destinado ao uso interno da prefeitura, reunindo informações técnicas sobre os ativos avaliados, recomendações e diretrizes para manutenção e prevenção.
Também está em estudo a criação de um mapa público, voltado à população, com informações úteis em situações de emergência, como a localização de pontos de apoio e de outras estruturas previstas no plano de contingência para eventos climáticos extremos.
De acordo com a coordenadora do GabClima, a procuradora de Justiça Sílvia Cappelli, o projeto integra a segunda edição do BRDE Labs, programa que apoia startups no desenvolvimento de soluções inovadoras para o setor público.
Ela explica que o Ministério Público buscava uma tecnologia capaz de fortalecer a prevenção de desastres climáticos e escolheu São Lourenço do Sul após um diálogo com a administração municipal.
— O prefeito foi quem compreendeu melhor a proposta e tomou a iniciativa de apresentar as demandas do município. Entendemos que São Lourenço exercia uma liderança regional e reunia condições para testar essa solução — afirma.
O projeto-piloto não terá custos para a prefeitura, já que é financiado pelo programa de inovação do BRDE.
Ideia nasceu após as enchentes de 2024
A plataforma começou a ser desenvolvida durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024.
Na época, a equipe criou um sistema para avaliar rapidamente imóveis atingidos pelas inundações em municípios como Porto Alegre. Agora, a proposta evolui para uma atuação preventiva, permitindo identificar vulnerabilidades antes da ocorrência de novos eventos extremos.
Se os resultados da experiência em São Lourenço do Sul forem positivos, a expectativa é de que a ferramenta seja ampliada e utilizada por outros municípios gaúchos como apoio ao planejamento da Defesa Civil e à gestão de riscos climáticos.
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