O que a inteligência artificial não substitui? Fotógrafos de Pelotas se unem para discutir o futuro da profissão


Divulgação
Agendas servem para troca de experiências e discutir os desafios da profissão.

Em um momento em que a inteligência artificial transforma a produção de imagens e provoca discussões sobre o futuro da fotografia, profissionais de Pelotas estão se reunindo para olhar justamente para aquilo que a tecnologia não substitui: a experiência, a técnica, a criatividade e a relação humana por trás de uma fotografia.

Esse é um dos objetivos do Movimento Metamorphosis, iniciativa que chegou a Pelotas há cerca de dois anos e agora ganha uma nova etapa, com encontros periódicos entre fotógrafos da região. A proposta é aproximar profissionais que muitas vezes atuam no mesmo mercado, mas pouco conhecem sobre a trajetória, o trabalho e até as dificuldades enfrentadas pelos colegas.

O primeiro encontro desta nova fase reuniu 27 fotógrafos e teve a participação do fotógrafo Matheus Freitas. A intenção é que os próprios profissionais da região sejam protagonistas inicialmente, compartilhando conhecimento e experiências antes da participação de convidados de outros lugares.

Um dos organizadores do movimento em Pelotas, o fotógrafo Antonio Rocha, explica que a ideia é substituir parte da lógica de concorrência por uma cultura de colaboração.

— A gente quer conhecer melhor o colega que está do nosso lado. Muitas vezes não temos ideia da história que ele viveu, das dores, do trabalho que desenvolve. Acabamos tratando esse profissional apenas como concorrente — afirma.

Segundo Rocha, Pelotas já conta com profissionais qualificados, mas a aproximação pode contribuir para elevar o mercado como um todo.

— Quando a maré sobe, todos os barcos sobem. Um mercado forte eleva o nível da concorrência e permite que os profissionais não apenas sobrevivam, mas prosperem através da arte de registrar momentos — diz.

O humano diante da inteligência artificial

Idealizador e fundador do Movimento Metamorphosis, Maurício Kunzler explica que a iniciativa não se limita à discussão sobre equipamentos, técnicas ou estratégias comerciais. O movimento se sustenta em quatro pilares: família, desenvolvimento humano, empreendedorismo e fotografia.

Para ele, o avanço da inteligência artificial tornou ainda mais necessário discutir a essência do trabalho do fotógrafo.

— Com toda a tecnologia que temos hoje e a inteligência artificial mudando o mercado de trabalho, não podemos esquecer das nossas origens humanas. Quanto mais entendermos o lado humano, as conexões e o relacionamento com as pessoas, maior será a diferença no futuro — destaca.

Kunzler também contesta a ideia de que a evolução das câmeras de celulares seja suficiente para transformar qualquer pessoa em fotógrafo. Para ele, o equipamento é apenas uma parte do processo e não substitui formação, técnica e sensibilidade.

— Uma pessoa com uma câmera ou um celular com uma boa câmera na mão é necessariamente um fotógrafo? É como dizer que uma pessoa com uma caneta é jornalista ou que alguém com um bisturi é médico. A gente acredita que o cliente compra fotografia e, quanto melhor fotografarmos e entendermos as pessoas, maior será o nosso diferencial.

Na avaliação do fundador, conhecimentos de marketing, vendas e gestão são importantes para a sustentabilidade dos profissionais, mas não devem ocupar o espaço da essência artística.

— A base da fotografia é a arte, a criatividade e, principalmente, entender a técnica. Marketing e vendas também são importantes, mas vêm depois — argumenta..

Concorrentes que passam a conversar

A criação dos encontros em Pelotas também surgiu da percepção de que profissionais podem encontrar conhecimento e inspiração dentro do próprio mercado regional. Segundo Kunzler, a aproximação permite discutir características dos clientes e da cultura local antes mesmo de buscar experiências em eventos realizados longe de casa.

Antonio Rocha compartilha dessa visão. A ideia inicial é abrir espaço para que fotógrafos da própria região contem suas trajetórias, apresentem trabalhos e discutam dificuldades comuns.

— Queremos começar com os de casa porque aqui tem muita gente boa. Depois, conforme o movimento for evoluindo, podemos buscar outras áreas de interesse e trazer pessoas de fora — explica.

A inspiração vem também de uma frase atribuída pelo grupo ao fotógrafo Junior Barreto: “concorrente é quem corre junto”. A proposta é estimular em Pelotas uma cultura de colaboração que, segundo os organizadores, já encontra exemplos consolidados em outras regiões do país.

O movimento também é um desdobramento do MFP — Movimento Fotográfico de Pelotas, que realizou encontros na cidade nos últimos anos. Kunzler destaca a atuação de Antonio Rocha na continuidade da proposta e na articulação entre os profissionais do sul do Estado.

Próximo encontro já tem data

Depois da primeira reunião desta nova etapa, o próximo encontro está marcado para 8 de setembro, no Los Chapas, em Pelotas. A convidada será a fotógrafa Angélica Rossi.

Além de questões técnicas e artísticas, a programação deverá abordar os desafios enfrentados pelos fotógrafos como empreendedores e abrir espaço para que os participantes compartilhem dificuldades e soluções encontradas no dia a dia da profissão.

Para Rocha, mais do que discutir o futuro da fotografia diante das novas tecnologias, o movimento pretende lembrar por que esses profissionais escolheram trabalhar com imagens.

— A fotografia é um propósito humano. Queremos que mais profissionais competentes consigam ter sucesso e sustentar suas famílias através dessa arte — conclui.

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