
Evandro Menezes de Carvalho. Professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), da Fundação Getulio Vargas (FGV) e da Cátedra Wutong da Universidade de Língua e Cultura de Pequim.
Na Conferência Mundial sobre Inteligência Artificial, realizada em Shanghai no dia 17 de julho, foi anunciada a criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO, na sigla em inglês). O Brasil estava presente e é um dos fundadores da organização. Mas outro fato me chamou a atenção: o discurso do presidente Xi Jinping.
No final de sua fala, ele disse: “Como observaram os antigos chineses: ‘Aquele que enxerga com clareza muda conforme os tempos; aquele que possui sabedoria formula suas medidas de acordo com as circunstâncias.'” Uma pessoa sem conhecimento ou interesse pela cultura chinesa, que só sabe rolar o feed de redes sociais, pensaria que tal sentença poderia ser mais uma boa máxima para um coach de ocasião.
Evitemos superficialidades. A máxima vem do livro Yantie Lun (Discursos sobre o Sal e o Ferro), obra atribuída a Huan Kuan. Era o início do reinado do imperador Zhao da dinastia Han Ocidental. Em 81 a.C., o regente Huo Guang convocou eruditos confucionistas para debater com oficiais do governo se deveriam continuar as políticas do imperador anterior, que impusera o monopólio sobre o sal e o ferro.
Os oficiais e os confucionistas tinham visões divergentes de governança. Os primeiros eram favoráveis ao modelo intervencionista, pois entendiam que, ao manter o monopólio sobre o sal e o ferro, o governo arrecadaria mais recursos para financiar a defesa das fronteiras contra ameaças externas. Já os confucionistas entendiam que o governo deveria abolir esse monopólio. Defendiam que o imperador não deveria competir com os próprios súditos por lucros e que o comércio deveria ser gerido pelo povo.
Acreditavam ainda que a segurança das fronteiras deveria ser garantida pela diplomacia de um governo virtuoso, e não pela força militar. Este é o resumo de um debate repleto de nuances na leitura do livro. Não se apressem a defender um dos lados a priori.
Não é de hoje que os chineses debatem temas como a intervenção estatal e a economia de mercado. E não são necessariamente termos excludentes. Na China atual, há uma síntese resultante de mais de dois milênios de história, no mínimo. Ao citar uma sabedoria chinesa antiga, Xi Jinping transmite a mensagem de que a governança não pode permanecer estática diante de uma tecnologia em constante mudança.
A citação resume uma característica recorrente do pensamento político chinês contemporâneo: a tradição é mobilizada como recurso conceitual para legitimar a adaptação e a criação institucionais. O passado importa tanto quanto (ou talvez até mais do que) o futuro.










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