Pausar desenvolvimento da IA é “parar o vento com as mãos”


“Temos neste momento um fenómeno que nos deixou a todos surpreendidos, perplexos, diria mesmo”, que foi haver um modelo de inteligência artificial, o Fable, da Anthropic, “que, de um dia para o outro, sem aviso qualquer, o botão foi desligado subitamente”, aponta.

Por acaso “estava a fazer um projeto com o Fable para perceber as capacidades do modelo e, de repente, li uma notícia na Bloomberg” de que este tinha desaparecido e, de facto, “não estava já”, relata Paulo Dimas, considerando “assustadora” o facto de uma “superpotência” como os EUA terem o poder de “desligar a inteligência artificial”.

Em meados de junho, a Anthropic suspendeu o acesso público aos modelos de IA mais avançados, para cumprir uma diretiva de controlo de exportações, que a obriga a impedir o acesso ao serviço por parte de estrangeiros por motivos de segurança nacional, mas agora, no início de julho, Washington levantou as restrições.

Segundo Paulo Dimas, neste momento há “um conjunto muito alargado de modelos de inteligência artificial, muitos deles desenvolvidos na China, os que estão na liderança, continuam a ser desenvolvidos”.

“Vamos atingir as capacidades deste modelo que neste momento” só está disponível a um conjunto de empresas ou está disponível a pedido, vamos ter em modelos abertos desenvolvidos pela China”, pelo que fazer uma pausa “é parar o vento com as mãos”, considera.

Aliás, “como é que nós vamos conseguir impedir que haja estes avanços tecnológicos por estas empresas chinesas porque, no final do dia, o que nos interessa é depois a aplicação destes modelos. E, portanto, acho que […] não faz sentido”, insiste Paulo Dimas.

Agora, “o que faz sentido é termos modelos que sejam responsáveis do ponto de vista do uso da inteligência artificial”, ou seja, “modelos que consigamos perceber qual é o alinhamento que eles têm, […] a moralidade, para usar o termo do Papa, que têm, isso é que é importante, porque nós acreditamos que esses vão ser os mais competitivos”, sublinha o CEO para o Centro de IA Responsável (nome em português).

Por outro lado, a nível europeu, “temos de colaborar estrategicamente na criação destes modelos de grande escala”, defende.

A forma de o fazer é, “mais uma vez, como tem sido feito”, diz, usando os exemplos dos modelos de IA EuroLLM, do Amália, “que é através de colaboração, através de abertura”.

A China, de certa forma, “está a fazer isso através de startups muito financiadas, nós, na Europa, ainda não temos essa agilidade de financiamento de startups e não temos a escala, mas acho que podemos ter este alinhamento”, considera Paulo Dimas.

“Acho que isso não é impossível, […] a Comissão Europeia e o European Innovation Council também têm um papel importante que é de alinhar a Europa neste desígnio absolutamente estratégico que é o da soberania em inteligência artificial”, prossegue.

“Estamos a construir, se calhar, duas, três torres de Babel centralizadas em que o poder está nas mãos de poucos e temos de evoluir para um modelo colaborativo em que todos possamos participar na criação da inteligência artificial”, insiste Paulo Dimas, referindo-se aos modelos abertos.

Até porque quando “trabalhamos em modelos abertos, nós estamos a partilhar aquilo que estamos a fazer, no fundo, cada um de nós está a dar um contributo para um bem maior”, remata.

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