Ao longo de 100 dias, uma gama crescente de produtos africanos chegou ao vasto mercado chinês, ajudando os países africanos a expandir exportações, subir na cadeia de valor global e dar novo impulso à cooperação econômica e comercial entre a China e a África.
Nairóbi, 10 ago (Xinhua) — O zumbido constante de linhas de produção automatizadas ecoa em uma fábrica de processamento de óleo de abacates com investimento chinês, localizada na Zona de Processamento de Exportação de Athi River, no Quênia. Lá, abacates recém-colhidos são armazenados, amadurecidos, selecionados e prensados a frio para produzir óleo de abacate extravirgem destinado ao mercado chinês.
Em 1º de maio, a China implementou integralmente o tratamento de tarifa zero para 53 países africanos com os quais mantém relações diplomáticas. Ao longo de 100 dias, uma gama crescente de produtos africanos chegou ao vasto mercado chinês, ajudando os países africanos a expandir exportações, subir na cadeia de valor global e dar novo impulso à cooperação econômica e comercial entre a China e a África.
Segundo a Administração Geral de Alfândegas da China, as importações chinesas provenientes da África atingiram 193,8 bilhões de yuans (28,72 bilhões de dólares americanos) em maio e junho, um aumento de 23,5% em relação ao ano anterior. As importações de abacates, maçãs e laranjas cresceram 130%, 89,6% e 27,9%, respectivamente.
EXPANSÃO DO MERCADO
À meia-noite de 1º de maio, 24 toneladas de maçãs frescas da África do Sul passaram pela alfândega no Porto de Shenzhen Bay, na China, tornando-se a primeira remessa a se beneficiar do tratamento de tarifa zero da China para 53 países africanos.
Desde então, abacates quenianos, vinhos sul-africanos, mirtilos do Zimbábue e outras especialidades africanas de qualidade chegaram às prateleiras de supermercados em toda a China, aproximando os benefícios desse tratamento do cotidiano dos consumidores.

Trabalhadoras separam abacates na Sanmark Ltd., na Zona de Processamento de Exportação de Athi River, polo industrial a sudeste de Nairóbi, no Quênia, em 28 de maio de 2026. (Xinhua/Xie Jianfei)
Na região de Cape Winelands, na África do Sul, a vinícola Diemersdal Wine Estate, com uma história de produção de vinhos que remonta a 1698, exporta seus vinhos para a China há quase duas décadas.
Após a implementação da política de tarifa zero da China, “o que observamos foi que importadores que já traziam vinhos da África do Sul decidiram reavaliar a categoria e demonstraram novo interesse”, disse à Xinhua Steffi Layer, gerente de marketing e vendas internacionais da Diemersdal Wine Estate.
“Temos algumas remessas que sairão para chegar à China antes do fim do ano, a tempo para o Ano Novo Chinês”, disse Layer, acrescentando que esses carregamentos se beneficiariam “absolutamente” da isenção tarifária, “já que os preços serão mais competitivos do que antes”.
Além das reduções tarifárias, a China ampliou, nos últimos anos, o acesso ao mercado para exportações africanas por meio de “canais verdes” e outras medidas de facilitação do comércio. Desde o final de abril, a China concedeu acesso unificado ao mercado regional, dispensando negociações bilaterais individuais, para pimentas secas, grãos de café, castanhas de caju e produtos aquáticos selvagens provenientes da África.
Impulsionado pelo tratamento tarifário preferencial, o Zimbábue exportou seu primeiro lote de mirtilos para a China em julho, marcando um marco importante para a indústria de horticultura do país e abrindo as portas para um dos maiores mercados consumidores do mundo.
A isenção tarifária é uma das aberturas comerciais mais significativas oferecidas aos exportadores do Zimbábue nos últimos anos, escreveu Allan Majuru, CEO da ZimTrade, órgão nacional de promoção comercial, em uma coluna de jornal em junho.
“O acesso à China abre espaço para o aumento da produção, uma infraestrutura de cadeia de frio mais robusta, melhores embalagens, maior capacidade de certificação e a expansão do emprego ao longo da cadeia de valor”, disse Majuru.
MODERNIZAÇÃO INDUSTRIAL
Na unidade de processamento de pimentas da Fisher Global, localizada no Parque Industrial de Rwamagana, na Província do Leste de Ruanda, fileiras de pimentas vermelho-vivo estão dispostas de forma organizada para secar, preenchendo o ar com um aroma suave e picante.

Trabalhadores organizam pimentas secas na fábrica agrícola Fisher Global, no Parque Industrial de Rwamagana, na Província do Leste de Ruanda, em 14 de abril de 2026. (Xinhua/Ju Yinhe)
A empresa começou a exportar pimenta seca para a China em 2022. Impulsionada pela política de tarifa zero da China, ela exportou seu primeiro lote de 550 kg de pimenta em conserva para uma empresa de alimentos na província de Shandong, no leste da China, em junho, marcando uma transição da exportação de matérias-primas para produtos semiprocessados de maior valor agregado, disse Herman Uwizeyimana, gerente-geral da Fisher Global.
“A política de tarifa zero deu novo fôlego ao nosso negócio de pimentas”, disse Uwizeyimana à Xinhua. “Nos últimos três meses, entrei em contato com vários novos compradores chineses. Alguns querem usá-las em hot pot, enquanto outros pretendem utilizá-las em temperos para macarrão instantâneo”.
“Este novo empreendimento abriu mercados mais amplos para as exportações de pimenta de Ruanda e estabeleceu padrões mais elevados para a seleção e a qualidade dos produtos da nossa empresa”, disse Uwizeyimana. “Esperamos que, no futuro, a pimenta de alta qualidade de Ruanda e seus produtos processados cheguem às mesas de mais consumidores chineses”.
“Para os exportadores ruandeses, especialmente as pequenas e médias empresas, a política de tarifa zero cria um ambiente de negócios mais competitivo, onde o preço deixa de ser uma barreira tão significativa quanto antes”, disse Robert Rukundo, presidente da Associação de Exportadores de Horticultura de Ruanda.
“As empresas estão investindo cada vez mais na melhoria da qualidade do produto, embalagem, certificação e conformidade com padrões internacionais para atender às preferências dos consumidores chineses”, disse ele.
Nas terras altas da África Oriental, a indústria do café passa por uma transformação semelhante em direção a uma produção de maior valor agregado. Na unidade de processamento da Awo Coffee, nos arredores de Adis Abeba, capital da Etiópia, os trabalhadores operam com eficiência e destreza enquanto sacas de grãos de café recém-torrados saem da linha de produção em direção aos caminhões que seguem para o aeroporto. Em poucos dias, o aroma rico do café Arábica etíope chega às xícaras dos consumidores chineses.

Um funcionário apresenta produtos da Awo Coffee em Adis Abeba, Etiópia, em 26 de outubro de 2025. (Xinhua/Liu Fangqiang)
Segundo o gerente-geral da Awo Coffee, Tesfaye Gebru, cerca de 90% dos produtos torrados da empresa são enviados para a China todos os anos. Somente em 2024, a empresa exportou 140 toneladas de grãos de café verde e 20 toneladas de produtos de café processado para a China, registrando um crescimento anual de cerca de 10%.
Ao descrever a política de tarifa zero como uma “abordagem de benefício mútuo” que gera benefícios a longo prazo para os povos da China e da África, Gizat Worku, gerente-geral da Associação de Exportadores de Café da Etiópia, disse que a China deve se tornar o principal destino do café etíope nos próximos três anos, impulsionada por uma demanda em rápido crescimento, especialmente por cafés especiais.
“O impacto real da política de tarifa zero da China não deve ser medido apenas pelo volume de exportações durante os primeiros 100 dias. Também devemos analisar se as empresas africanas estão melhorando seus padrões de qualidade, embalagens, certificação e capacidade de produção”, disse Paul Frimpong, diretor-executivo do Centro África-China de Políticas e Consultoria, sediado em Gana.
“Para Gana, esta é uma grande oportunidade, pois não devemos continuar exportando principalmente amêndoas de cacau cruas, castanhas de caju brutas e outros produtos não processados. Precisamos processar, embalar e agregar marca a mais desses produtos localmente antes de exportá-los. Isso nos permitirá reter mais valor e criar mais empregos internamente”, disse Frimpong.
A visão de Frimpong foi compartilhada pelo presidente da União Africana e presidente do Burundi, Evariste Ndayishimiye, que disse que a política de tarifa zero da China oferece oportunidades significativas para os países africanos, contribuindo para “maiores receitas com nossos produtos, a criação de empregos sustentáveis para nossa juventude e, acima de tudo, o desenvolvimento do processamento local, para que o valor agregado permaneça no continente africano”.

Foto aérea tirada por drone em 31 de março de 2026 mostra a vinícola Diemersdal Wine Estate, na Cidade do Cabo, África do Sul. (Xinhua/Deng Bingxue)
BUSCA CONJUNTA PELA MODERNIZAÇÃO
Em entrevista recente à Xinhua, o presidente de Cabo Verde, José Maria Neves, disse que, diante das crescentes restrições ao comércio internacional, a maior abertura da China para a África desempenhará um papel positivo no crescimento econômico do continente.
“O tratamento coloca em prática o objetivo comum da China e da África de promover a modernização por meio da complementação das estruturas econômicas de ambas as partes. A China oferece o mercado, a África recebe equipamentos industriais para se modernizar, e ambos se beneficiam mutuamente”, disse James Shikwati, economista queniano.
Yu Jia, pesquisador do Instituto de Nova Economia Estrutural da Universidade de Beijing, na China, disse que a política de tarifa zero não é uma concessão tarifária pontual ou de curto prazo, mas marca uma nova etapa na cooperação econômica e comercial entre a China e a África, impulsionada pela abertura institucional.
“Tanto para as empresas africanas quanto para os investidores multinacionais, a previsibilidade é, por si só, um recurso importante para o desenvolvimento”, disse Yu.
Dados oficiais mostraram que as exportações chinesas de produtos eletromecânicos para a África atingiram 534,11 bilhões de yuans (79 bilhões de dólares) no primeiro semestre de 2026, um aumento de 28,8% em relação ao ano anterior. Cerca de 75% das exportações da China para a África consistem em bens de capital e intermediários, principalmente insumos produtivos que apoiam a industrialização e a modernização agrícola do continente africano.
“O que a China oferece à África não é simplesmente ajuda. Ela oferece à África uma oportunidade de transformação por meio da produção, da industrialização e do comércio”, disse Charles Onunaiju, diretor do Centro de Estudos sobre a China na Nigéria.
“Em conjunto com plataformas como a Exposição Internacional de Importação da China e outras iniciativas comerciais China-África, acredito que o tratamento de tarifa zero expandirá ainda mais o comércio bilateral e contribuirá para uma parceria econômica mais equilibrada, sustentável e mutuamente benéfica”, disse Humphrey Moshi, professor de economia da Universidade de Dar es Salã, na Tanzânia.
(Repórteres de vídeo: Zhang Jian, Dai He, Hua Hongli, Li Zhuoqun, Wang Hao, Liu Fangqiang, Zeng Tao, Bao Jiayi, Zheng Mengyu, Si Yuan, Deng Bingxue, Wang Lei, Wang Xiaomei, You Huiyuan, Hong Zehua, Xu Zheng, Yang Dingdu, Gui Tao e Adewale Amzat; edição de vídeo: Hong Yan, Roger Lott, Luo Hui e Liu Yutian)











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