Na Copa América e na Libertadores, parceria entre Conmebol e Concacaf faz cada vez mais sentido


Final da Libertadores fora da América do Sul? Veja os planos da Conmebol

Marcel Rizzo fala da decisão da Libertadores entre Palmeiras e Flamengo e explica a chance de ser disputada fora da América do Sul. Crédito: Marcel Rizzo/Guilherme Schanner

Conmebol e Concacaf negociam a realização de mais uma Copa América nos Estados Unidos em 2028, impulsionadas pelo sucesso comercial da edição de 2024. As duas confederações dividiram a organização do último torneio e obtiveram bons resultados de público nos estádios e recorde de receitas.

O movimento sugere um alinhamento de interesses, sem que seja necessária uma fusão política entre as entidades.

A união da tradição e da técnico sul-americana com o poder de consumo e econômico dos países da América do Norte tem o potencial de maximizar receitas de direitos de transmissão e patrocínios.

A Copa América completou seu centenário em 2016, e a edição comemorativa foi realizada justamente nos Estados Unidos — a primeira vez que o torneio foi disputado fora do continente sul-americano.

Com o êxito da edição de 2024 e o envolvimento dos norte-americanos na organização da Copa do Mundo de 2026, há um interesse mútuo em manter essa parceria para 2028. Embora a sede ainda não esteja definida, a Conmebol trabalha com possibilidades na América do Sul (Argentina ou Equador) e, novamente, com os Estados Unidos.

Copa América de 2024 foi organizada nos Estados Unidos, mais uma vez candidato a sediar a competição, em 2028 Foto: Divulgação/ CONMEBOL Copa América

A “Eurocopa das Américas”

A edição de 2024 serviu como laboratório, e a repetição da parceria em 2028 tem potencial para transformar o evento em algo comparável a uma “Eurocopa das Américas”.

Esse reposicionamento poderia elevar os direitos de transmissão a um patamar global, similar ao que ocorre com o torneio europeu. Atualmente, a Copa América é um produto consumido majoritariamente dentro do continente sul-americano.

A Conmebol enfrenta um teto de receitas mais limitado quando trabalha apenas com seus dez países filiados. A participação das seleções da América do Norte amplia consideravelmente esse teto, reduzindo a exposição aos riscos e instabilidades das economias sul-americanas para garantir o sucesso comercial do evento.

Além do aspecto financeiro, a presença de seleções como México, Estados Unidos e Canadá, que têm evoluído significativamente, oferece um desafio técnico superior, elevando a competitividade do torneio para além do habitual domínio de Brasil e eventualmente da Argentina.

O gargalo do calendário e a Liga das Nações

Outro fator que aproxima as confederações é o calendário. Com a redução das datas Fifa no horizonte e a Liga das Nações da Uefa já consolidada — o que retira as seleções europeias do mercado de amistosos —, ganham força os rumores sobre a criação de uma Liga das Nações Pan-Americana.

A Concacaf já realiza sua versão do torneio com relativo sucesso. Uma competição unificada reuniria mais seleções de peso em um formato competitivo, criando um produto recorrente com forte apelo para as televisões de toda a América e, potencialmente, para o mercado global.

A Conmebol já considera o formato de Liga das Nações inclusive para as Eliminatórias da Copa do Mundo de 2030, dado que três de seus membros (Argentina, Uruguai e Paraguai) estarão classificados como sedes dos jogos inaugurais.

A junção com a Concacaf serviria não apenas como classificatória, mas como um torneio capaz de gerar premiações maiores e atrair atenção internacional.

Libertadores: desafio técnico e comercial

No cenário de clubes, a integração também é debatida há algum tempo. O objetivo seria repetir, em novos moldes, a experiência vivida entre 1998 e 2016, quando os clubes mexicanos disputaram a Libertadores.

Existe interesse tanto dos mexicanos quanto das franquias da MLS em participar da competição sul-americana, que oferece um prestígio e um nível de dificuldade superiores aos da Copa dos Campeões da Concacaf.

A saída dos mexicanos em 2016 representou a perda de uma receita de TV importante para a Conmebol. O retorno desses clubes e a entrada da MLS não trariam apenas dólares; eles injetariam um componente técnico valioso.

As equipes da América do Norte, com elencos cada vez mais qualificados e estrelas internacionais, representam adversários capazes de desafiar a hegemonia de brasileiros e argentinos, tornando a disputa mais imprevisível e atraente esportivamente.

A Leagues Cup serve como um bom exemplo de viabilidade. A competição, que reúne times da Liga MX e da MLS, teve sucesso comercial e de público, sendo transmitida pela Apple TV — detentora dos direitos globais da liga norte-americana. Uma integração com a América do Sul seria um ativo valioso para detentores de direitos de transmissão e patrocinadores globais.

Apesar da atratividade, o desafio logístico é real. No entanto, considerando os problemas de transporte já existentes na América do Sul, essa barreira é transponível, especialmente se os cruzamentos continentais ocorrerem apenas nas fases eliminatórias. As finais em jogo único recentes mostraram que os desafios logísticos são imensos em praticamente qualquer cidade sul-americana fora do eixo Buenos Aires–Montevidéu–Rio–São Paulo.

O futebol das Américas caminha para uma maior integração comercial, um movimento que parece cada vez mais inevitável. A necessidade de competir financeiramente com a Europa obriga a Conmebol e os clubes sul-americanos a buscarem receitas onde há maior potencial de expansão: a América do Norte. Em contrapartida, a Concacaf se beneficia da experiência, da tradição e do desafio técnico dos vizinhos do sul.

O arranjo para 2028 não deve ser visto como um fim, mas como um novo passo no processo de unificação desses mercados, onde a independência política é mantida, mas as fronteiras comerciais e esportivas são abertas.

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