A descrição feita pelo técnico da Bélgica, Rudi Garcia, do Senegal como uma “daquelas equipes” que “tendem a perder sua estrutura tática no final da partida” reacendeu o debate sobre o uso de linguagem com conotação racial na Copa do Mundo.
Garcia fez essas declarações após a virada de última hora da Bélgica contra o Senegal na quarta-feira. Em um comunicado publicado nas redes sociais dois dias depois, Garcia afirmou que estava “se referindo a seleções não acostumadas a administrar uma vantagem em partidas de alto nível da Copa do Mundo” e que seus comentários poderiam se aplicar a seleções de qualquer região.
Mas críticos afirmaram que as declarações de Garcia se basearam em uma história mais profunda de estereótipos raciais que há muito tempo retratam jogadores negros e seleções africanas como naturalmente poderosos e instintivos, mas taticamente ingênuos, emocionalmente frágeis ou incapazes de suportar a pressão.
Para estudiosos e defensores do antirracismo, a polêmica expôs uma falha recorrente na cobertura do futebol: como a linguagem apresentada como análise tática ainda pode veicular antigos estereótipos raciais.
“(Isso) é profundamente racista em termos da reprodução de estereótipos racializados sobre essas seleções, essas seleções africanas que carecem da capacidade de controlar uma partida, de se controlar, e isso vem daquela estrutura colonial de tendências animalescas que são projetadas sobre pessoas negras e sobre populações negras”, disse Ben Carrington, professor de jornalismo e sociologia na USC Annenberg, cuja pesquisa se concentra na interseção entre raça e esporte.
Peter Alegi, professor de história da Universidade Estadual de Michigan que escreveu extensivamente sobre o futebol africano, disse que os comentários de Garcia foram “muito desconcertantes” porque ecoavam estereótipos que as seleções africanas passaram décadas tentando superar.
Ele disse que o colapso do Senegal no final do jogo corria o risco de reavivar suposições já conhecidas, especialmente se as potências tradicionais do torneio chegarem às finais.
“Isso vai desfazer grande parte da boa vontade que as seleções africanas acumularam, além de todas as conquistas maravilhosas”, disse Alegi, citando a organização da Copa do Mundo de 2010 pela África do Sul como exemplo da capacidade de um país africano de organizar e moldar o futebol mundial. “Basta uma partida, e essa narrativa volta.”
Inúmeros estudos acadêmicos mostram que os comentaristas costumam descrever jogadores negros, tanto homens quanto mulheres, com base em aptidão física, velocidade e força, enquanto dedicam menos atenção à sua inteligência tática, técnica ou tomada de decisões.
Em um dos estudos mais recentes, que se concentrou nos comentários durante a Copa do Mundo de 2018, pesquisadores das universidades de Leicester e Coventry descobriram que 70% dos elogios dirigidos a jogadores negros se concentravam em atributos físicos, em comparação com 18% dos elogios a jogadores brancos. Menos de 20% dos elogios a jogadores negros se concentravam em habilidades adquiridas, caráter ou capacidades cognitivas, em comparação com 73% para jogadores brancos.
“Os padrões de longa data na mídia global sobre raça e esporte são impulsionados e racionalizados por duas crenças errôneas, porém profundamente arraigadas: o essencialismo racial — a ideia de que a raça existe como uma categoria biologicamente real, na qual uma raça possui traços que lhe são essenciais — e o determinismo biológico — de que esses traços essenciais determinam biologicamente os resultados”, afirmou Matthew Hughey, professor de sociologia da Universidade de Connecticut e especialista em raça e esporte.
Ele acrescentou que tais estereótipos começaram a surgir na primeira metade do Século 20, quando atletas negros passaram a obter sucesso esportivo.
No início do torneio, o comentarista alemão e ex-jogador de futebol Bastian Schweinsteiger comentou, antes da partida entre Alemanha e Costa do Marfim, que a Alemanha precisava estar “preparada para que o jogo fosse imprevisível em alguns momentos” e que os marfinenses jogavam “futebol africano”, que ele caracterizou como “um pouco heterodoxo às vezes, um pouco selvagem, não tão tático”.
O técnico da Costa do Marfim, Emerse Fae, afirmou que os comentários poderiam ser considerados racistas — alegação que Schweinsteiger rejeitou, alegando que estava apenas analisando um estilo de jogo.
O ex-jogador de futebol sérvio Rade Bogdanovic, que agora trabalha como comentarista da emissora pública sérvia RTS, pediu desculpas após fazer comentários racistas sobre jogadores negros durante a partida de 21 de junho entre Bélgica e Irã. Ele questionou a concentração e a resistência dos jogadores negros da Bélgica depois que a partida terminou em empate sem gols.
O jornalista esportivo britânico Leon Mann, fundador da organização Black Collective Media in Sports, que assessora emissoras e ajuda jovens de grupos sub-representados a ingressar no setor, disse que as declarações de Schweinsteiger foram “ignorantes e baseadas em estereótipos”, mas que tais momentos devem abrir espaço para conversas que levem a melhorias na cobertura e nos comentários.
“Se uma Copa do Mundo pode desafiar essas percepções, esses estereótipos negativos, então fico feliz por estarmos tendo essas conversas, porque as pessoas não estão conseguindo empregos por causa de termos como ‘selvagem’ e ‘pouco sofisticado’, não estão sendo colocadas em cargos de liderança, não estão conseguindo empregos para sustentar suas famílias, por causa dessas visões arraigadas, não apenas no futebol”, disse ele.
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A Fifa não se pronunciou. A entidade que rege o futebol mundial lançou, nos últimos anos, iniciativas para punir atos de racismo e desenvolver ações educativas sobre o tema. Ela criou um painel consultivo formado por ex-jogadores de diversas origens étnicas.