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Há pouco mais de uma semana, estive com o embaixador do Brasil na Argentina, Julio Bitelli, em Buenos Aires. Conversamos sobre um tema que, àquela altura, parecia resumir bem a relação entre os dois países: apesar da ausência de diálogo entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei, a diplomacia seguia trabalhando e os negócios fluindo muito bem.
O Brasil é o principal parceiro econômico da Argentina. Na ocasião, Bitelli falava com serenidade sobre a missão de preservar os canais institucionais e manter o foco na agenda que importa, especialmente nas negociações entre o Mercosul e a União Europeia.
Em nenhum momento houve espaço para lamentações. Pelo contrário. A mensagem era a de que governos passam por crises políticas, mas a relação entre Brasil e Argentina é maior do que seus presidentes.
Poucos dias depois daquela conversa, a realidade mudou. Convocado para consultas pelo Itamaraty, Bitelli permanece em Brasília, sem previsão de retorno a Buenos Aires. Seu chamado é um dos sinais mais visíveis da possível deterioração da relação bilateral —um gesto raro entre dois países que, desde a redemocratização, construíram uma das parcerias mais importantes da América do Sul.
A lembrança desse encontro ganha, por isso, um peso inesperado. Ela mostra que a diplomacia pode construir pontes e preservar interesses comuns. Mas também lembra que, quando a política externa se transforma em extensão da disputa eleitoral, nem mesmo relações de Estado escapam da turbulência.
MIRADA
LATINAS
“O Mundo de Então” (Editora Corargem, R$ 120, 576 págs.)
E se alguém escrevesse a história dos nossos dias daqui a cem anos?
Essa é a provocação do jornalista espanhol Martín Caparrós em “O Mundo de Ento”. O livro reúne crônicas narradas por uma historiadora fictícia do século 22, Agadi Bedu, que observa os anos de 2022 e 2023 como nós observamos hoje a Idade Média: com estranhamento, curiosidade e certa incredulidade.
O recurso literário permite inverter a perspectiva. Em vez de perguntar como será o futuro, Caparrós pergunta como o futuro julgará o presente. Talvez se surpreenda ao descobrir que chamávamos nossos sistemas de “democracias” enquanto convivíamos com desigualdades extremas. Ou que entregávamos tantas decisões a algoritmos sem saber exatamente como eles funcionavam. Ou ainda que uma parte significativa da humanidade continuava passando fome em um planeta capaz de produzir alimentos em abundância.
Ao longo do livro, essas questões ganham rosto. Entre os 25 personagens retratados estão Lionel Messi, uma operária têxtil de Bangladesh, uma pastora da Mongólia e tantas outras pessoas que ajudam a contar um mesmo tempo histórico por ângulos completamente diferentes.
“História Contemporânea da América Latina e do Caribe” (Edições Sesc, R$ 115, 580 págs.)
O livro, que contém textos de historiadores e jornalistas, trata de temas como a atual crise argentina, imigração e instabilidade política. Assinam os textos de abertura Álvaro García Linera, Marcio Pochmann e Emir Sader.
“América Central: desafios e resistências no século 21” (Editora Elefante, R$ 229, 408 págs.)
Excelente combinação de textos que mostram os principais problemas que afetam esses países e fogem da ideia de que se trata de meros criadores de imigrantes.











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