Depois de mais dois apagões, Portugal pode voltar a ficar às escuras?


Quando tudo funciona, raramente pensamos na importância da energia nas nossas vidas. Mas basta um apagão para que o quotidiano pare quase por completo: os semáforos deixam de funcionar, os elevadores ficam imobilizados, os pagamentos eletrónicos falham, as comunicações tornam-se instáveis e até tarefas simples, como cozinhar, abastecer um carro ou trabalhar, podem transformar-se num desafio.

Hoje em dia, um apagão já não significa apenas ficar às escuras. Significa um inevitável sentimento de incerteza. E Portugal já viveu esse sentimento a 28 de abril de 2025 – dia que ninguém esquece.

Mas os recentes episódios registados em Cuba e Angola voltaram a colocar esta questão na ordem do dia: poderá Portugal enfrentar novamente um apagão? Primeiro temos de perceber o que aconteceu lá fora.

Dois países, duas crises diferentes

Em Cuba, um novo colapso da rede elétrica deixou grande parte da ilha sem eletricidade durante mais de um dia e meio. Apesar de a empresa estatal ter conseguido restabelecer parcialmente o sistema, vastas zonas continuaram sem energia. Em Havana, apenas cerca de 42% da cidade tinha eletricidade várias horas depois do início da recuperação, segundo relata a Sic Notícias.

Para muitos cubanos, este tipo de situação deixou de ser excecional. Os cortes são frequentes e fazem parte do quotidiano de uma população que enfrenta uma profunda crise económica, agravada pelo envelhecimento das centrais termoelétricas, pela escassez de combustível e pelas sanções impostas pelos Estados Unidos.

Já em Angola, o problema não esteve na produção de energia, mas, segundo meios angolanos, nas telecomunicações. Um ataque informático à Unitel, a maior operadora móvel do país, provocou um efeito dominó que rapidamente ultrapassou o setor das comunicações.

Milhares de pessoas ficaram impedidas de realizar transferências, pagar impostos, receber salários ou efetuar compras com cartão. Em muitas empresas foi necessário recorrer a soluções improvisadas, enquanto supermercados, restaurantes e outros estabelecimentos enfrentaram dificuldades nos pagamentos eletrónicos.

O incidente evidenciou um problema cada vez mais discutido pelos especialistas: a excessiva dependência de um único operador ou de um único sistema crítico pode transformar uma falha tecnológica numa crise nacional.

Quanto ao caso de Portugal em 2025, a origem do apagão esteve relacionada com problemas de estabilidade e operação do sistema elétrico ibérico e a recuperação foi lenta porque o país dispunha apenas de duas centrais com capacidade de arranque autónomo, conhecidas como Blackstart.

O que mudou desde então?

Um ano depois, o cenário é diferente.

Segundo uma notícia da RTP, desde o ano passado, Portugal duplicou a capacidade de recuperação da rede, passando de duas para quatro centrais Blackstart. Às centrais já existentes em Castelo do Bode e Tapada do Outeiro juntaram-se novas infraestruturas no Baixo Sabor e no Alqueva, capazes de iniciar autonomamente o processo de reposição da eletricidade em poucos minutos.

Além deste reforço, foram implementadas outras medidas para aumentar a resiliência da rede elétrica, incluindo novos equipamentos para estabilização da tensão e projetos de armazenamento de energia em baterias.

Na prática, isto significa que, caso ocorra um incidente semelhante, a recuperação deverá ser mais rápida e mais eficiente do que aconteceu em abril de 2025.

Contudo, apesar de estarmos mais preparados, há uma outra questão que se tem colocado: o calor extremo pode provocar um novo apagão?

Depende.

“O risco no verão é o stress térmico dos materiais (cabos e transformadores) e os incêndios florestais perto das linhas, e não a falta de energia no sistema“, indica António Vidigal, ex-CEO da EDP Inovação e agora consultor na área Energia, em entrevista ao Capital Verde do ECO. E, para nosso descanso, conclui: “Acredito que não vão acontecer incidentes relevantes”, defendendo que Portugal está hoje mais preparado para lidar com elevadas temperaturas do que França, por exemplo.

Contudo, isso não significa que o risco seja nulo. Podem ocorrer falhas localizadas provocadas por avarias em equipamentos sujeitos a stress térmico ou por incêndios que afetem linhas elétricas, mas um colapso generalizado da rede não é considerado o cenário mais provável.

A própria REN tem afirmado que, tendo em conta a produção disponível e as previsões de consumo, não identifica atualmente qualquer risco de falha no abastecimento elétrico nacional.

A preparação é a chave

Seja do envelhecimento das redes, como aconteceu em Cuba; de ataques informáticos, no caso de Angola; ou de problemas técnicos complexos na operação dos sistemas elétricos, como sucedeu na Península Ibérica em 2025, o melhor é estarmos preparados.

Por isso, na galeria de imagens a VERSA deixa um kit de emergência recomendado pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC). Deixamos ainda dicas para lidar com a conservação de alimentos.



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