“De manhã cedinho, eu salto do ninho e vou p’ra paragem”.
Este é talvez o verso que mais espelha a vida dos portugueses nos dias de trabalho. Mas, não fosse o turismo, que alguns dizem excessivo, e o mês de agosto seria uma verdadeira pasmaceira na vida das nossas cidades.
Lá longe, na aldeia, a Tia Maria ajeita o seu lenço preto, que há muito carrega uma viuvez solitária, para tapar o barulho dos carros que chegam. As matrículas denunciam que vêm de outro país e as músicas que se ouvem ditam a sentença: são os nossos emigrantes!
“Ohh querrrrida Tante, há quante tempo!!” A Tia Maria, por instantes, para e observa toda aquela azáfama. Crianças de colo e outras que correm desenfreadamente pela rua atrás dos animais. É a felicidade(zinha) que, pelo menos durante um mês, será o dia a dia da aldeia. Todos sorriem, todos parecem estar felizes.
A Tia Maria não. Apenas observa. A sua pele, profundamente enrugada, denuncia uma dura vida de trabalho no campo, os seus olhos mal enxergam o que passa nos 5 metros em seu redor e os ouvidos só ouvem quando alguém traz umas pilhas novas para o seu aparelho auditivo. A solidão é a sua companhia — já a conhece muito bem — mesmo quando, em agosto, a aldeia fica cheia de gente.
Voltando à cidade, na primeira estação de serviço da auto-estrada, um carro para e sai um casal dos seus 35 anos, um filho que não terá mais de 9 anos e um cão. Cada um com o seu telemóvel — exceto o cão, claro — e os seus óculos de sol. Aguardam pela próxima vaga num carregador. São três as pessoas que os antecedem na fila.
O pai fica no carro, chateado porque se esqueceu de carregar o carro no dia anterior, a mãe segue para o interior da estação de serviço, aborrecida por ter de fazer uma paragem não prevista e o filho fica com a trela (à qual está acoplado um cão) e com o telemóvel, cada um na sua mão, claro!
Que semelhanças existem entre a Tia Maria, que mal vê, mal sente e não ouve, com aquela família?
O miúdo que não vê o cão a abanar a cauda e a olhar para si porque está enfiado num mundo paralelo. Mas que também não sente a felicidade das férias, aparentemente, é só mais um carregamento. E o pai, que não sente o fervor da paixão pela sua família, pela sua esposa, que solitariamente se faz passear no meio das revistas expostas dentro da estação de serviço.
Mas, o que é que isto tem que ver com as férias?
Cada um faz o que quer, de preferência nada, e é esta inércia absoluta que contrasta com o aparente movimento de ambos os cenários. Julgamos que descansar é esvaziar o tempo, mas o verdadeiro repouso está em preenchê-lo de outra forma.
A realidade do envelhecimento
A evidência é cruel. Portugal enfrenta uma das realidades demográficas mais severas da Europa, o envelhecimento acentuado da população e a desertificação humana do interior.
A Ti Maria é o rosto de um país que ficou para trás, isolado numa província que perdeu o fôlego e que a azáfama das grandes cidades esqueceu. Agosto traz a ilusão de uma energia artificial. O ruído dos carros e a azáfama dos netos que correm pelas ruas mascaram, durante quatro semanas, a solidão de um território em progressiva extinção.
Mas esta efervescência tem os dias contados. Quando setembro chegar e as malas se fecharem, o silêncio voltará a instalar-se naquele banco de pedra. A grande tragédia é a solidão que se faz sentir quando a casa está cheia de gente que, estando lá, já partiu.
A semelhança entre a idosa da aldeia e a família da estação de serviço é curiosa. Nos dois quadros, a presença humana ficou suspensa. Num lado do país, os sentidos falham pela debilidade natural do corpo. No outro, os sentidos são (in)voluntariamente anestesiados. O miúdo fita o ecrã, incapaz de acolher a lealdade do cão que espera. O pai luta com a sua frustração utilitarista e os olhos postos na percentagem da bateria, alheio ao passeio solitário da esposa entre as revistas da conveniência.
Habitamos o mesmo espaço físico, partilhamos a mesma rota das férias, mas vivemos em exílios paralelos. Esta é a solidão mais assustadora do homem atual, a hiperconexão, onde a incapacidade de olhar nos olhos do outro é gerida com distrações que “nos servem”.
Tratamos o descanso como um direito soberano ao “nada”, um parêntesis de egoísmo onde nos fechamos no consumo de experiências descartáveis. Contudo, a ociosidade total não restaura as forças da alma, deprime.
O verdadeiro repouso exige uma mudança de atividade, uma reorientação ativa da atenção para aquilo que realmente nos edifica. São Tomás de Aquino falava da virtude da eutrapelia — o justo equilíbrio no divertimento e no repouso, que recusa tanto a severidade quadriculada que asfixia a alegria, como a dissipação superficial que esvazia o espírito.
Há, aliás, imagem evangélica que ilumina as duas primeiras e que o próprio João Paulo II escolheu, num Angelus de verão em Castel Gandolfo, para falar precisamente disto. O Papa comentava o episódio de Marta e Maria. Marta atarefada nas lides da casa, a organizar, a resolver, a antecipar-se às necessidades de todos e Maria sentada aos pés do Mestre, simplesmente a escutar. Não há condenação do trabalho de Marta, apenas o lembrete de que existe uma parte que ninguém nos pode arrebatar, e que só se alcança quando paramos de fazer para começarmos a escutar o Outro que amamos.
A família da estação de serviço é Marta multiplicada por três, cada um atarefado à sua maneira. Ninguém, ali, é Maria. E talvez seja este o verdadeiro convite do verão, não o de parar de fazer, mas o de, por uma vez, sentar-se, ouvir e ver.
10 dicas para umas férias que sejam, de facto, descanso
- Decidir primeiro o ritmo do dia, só depois as atividades.
- Fazer da refeição em comum um ritual, sem pressas, sem ecrãs à mesa.
- Reservar, uma vez por semana, um momento só do casal.
- Envolver todos nas pequenas tarefas de casa, ninguém quer ficar de fora, nem os mais pequenos!
- Marcar o domingo de forma visível: uma roupa mais cuidada, um almoço com um pormenor especial, a família toda na Missa — um dia que se distingue dos outros, para o Senhor.
- Aceitar o atrito com humor. Não existem modelos de família, o que conta é como se atravessa o problema — ele vai surgir!
- Descansar sem culpa, porque o corpo também precisa de ser reabastecido de energia.
- Fazer do dia uma festa verdadeira, que reúne gerações e não apenas encher o tempo.
- Deixar espaço, ao fim do dia, para um “obrigado” em silêncio, à mesa, na cama dos filhos, onde calhar. É pouco, mas muda o dia todo.
- No final do dia, lembrar quem esteve contigo e não o que visitaste.
Descansar ativamente é ter a coragem de quebrar o funil dos ecrãs para dar-se aos outros. As férias são o tempo oportuno para estarmos, verdadeiramente, com as pessoas. É o momento de gastar tempo com os pais idosos que resistem na província, de passear de mão dada com quem amamos, de escutar os avós cujos dias já se contam com brevidade e de habitar a mesa de jantar com os filhos, sem a pressa do relógio ou a intromissão das notificações.
E essa mesa existe, ainda, em algumas casas deste país. Os telemóveis ficam ao longe, viram-se as costas ao ecrã, e o jantar demora mais do que é preciso porque ninguém tem pressa de o terminar. O avô repete pela décima vez a história do ano em que quase perdeu o avião, e os netos riem como se fosse a primeira vez. Ninguém verifica a bateria. Ninguém sente falta do que não está ali. É pouco, mas é tudo, é a “melhor parte” de que falava o Papa, e ninguém a pode tirar a quem a viveu.
Estar com quem não podemos estar no dia-a-dia não é uma “sobra” social, é o núcleo da nossa humanidade.
Dar primazia à vida interior
Como tantas vezes recordava o Papa João Paulo II, o período estival é o espaço propício para dar primazia à vida interior, para escolher, ainda que por umas semanas, o lugar de Maria. O homem contemporâneo está excessivamente projetado para fora, refém do parecer e da performance exterior. Se não aproveitarmos esta paragem para olhar para dentro, regressaremos à rotina tão vazios como quando partimos. Dar primazia à vida interior é purificar o olhar. É ser capaz de ver na pele enrugada da Tia Maria a dignidade indelével de uma história que nos precede, e no abanar de cauda de um cão a beleza simples da realidade não editada, e é também ser capaz, de à mesa, escolher ficar. É no silêncio e na contemplação da natureza que reordenamos os afetos e encontramos as razões para viver.
Oferecer a nossa presença desarmada aos que amamos dá trabalho, exige contenção do ego, paciência e sacrifício. Mas é aí, e só aí, que as férias deixam de ser uma paragem técnica na estação de serviço para se tornarem num verdadeiro caminho de libertação do que nos pesa.
Que este mês de agosto não seja uma mera pasmaceira. Que tenhamos a coragem de desligar os carregadores virtuais para ligar o coração à fragilidade de quem caminha connosco. Porque, no fim da estrada, o que salva uma vida é Alguém que fica. É Alguém que Ama.
Gestor// Escreve no SAPO, quinzenalmente, à quinta-feira










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