Portugal como hub de computação, energia e conectividade


A Mistral e a Microsoft anunciaram, em julho, um novo acordo para expandir a infraestrutura de inteligência artificial (IA) na Europa.

“A Microsoft irá aproveitar a infraestrutura expandida de Unidade de Processamento Gráfico (GPU) da Mistral na Europa para aumentar a capacidade de desenvolvimento de IA e para suportar a entrega dos serviços de cloud (ou nuvem) e IA da Microsoft. Isto representa um investimento bilionário da Microsoft e uma forma importante para os clientes da Microsoft beneficiarem das inovações científicas e de computação da Mistral”, adiantaram as empresas.

Como Portugal pode tirar partido desta união entre a mais valiosa startup europeia na área da inteligência artificial e uma das tecnológicas cotadas mais valiosas do mundo?

Especialistas em capital de risco consideram que esta parceria pode ser uma oportunidade para o território luso. O ganho, para Portugal, pode vir pela existência de empresas que “resolvam problemas reais dos clientes e criam barreiras de entrada duradouras” e também pela “captura” de valor real como hub de computação, energia e conectividade, defendem o managing partner da Shilling VC, a unidade de venture capital da Draycott, e o managing partner da Ventures.eu, um fundo de capital de risco que investe nas startups mais promissoras na Europa, ao Jornal Económico (JE).

O managing partner da Shilling VC, Ricardo Jacinto, defende que Portugal tem aqui [referindo-se à parceria entre Microsoft e Mistral] uma “carta que muda” a nossa própria narrativa: “em vez de estarmos na periferia da Europa, a ligação atlântica e a proximidade aos Estados Unidos fazem de nós uma das suas portas de entrada”, explica.

“Temos a camada física, energia renovável, território, clima, mas também, e isto é decisivo, uma boa academia e talento técnico de qualidade”, assinala Ricardo Jacinto. “Sines é o melhor exemplo do primeiro: um campus dimensionado para 1,2 GW, construído sobre uma antiga central a carvão, e um ponto de amarração cada vez mais relevante de cabos submarinos no Atlântico”, salienta.

Contudo, diz Ricardo Jacinto, convém moderar o entusiasmo. “Há hoje cerca de 40 pedidos de instalação de data centers (ou centros de dados) em Portugal, mas uma coisa é o pedido, outra é a execução, e outra ainda é termos a rede e a energia para os aguentar. O nosso desafio, mais do que atrair, é concretizar”, explica.

“E é aqui que entra o ponto que, como investidor, mais me importa: a infraestrutura, por si só, gera pouco valor, e, a seu tempo, será uma commodity,alerta o managing partner da Shilling VC.

“Vale a pena lembrar o que aconteceu com a fibra ótica: quem instalou os cabos capturou uma fração ínfima do valor; foram as empresas construídas por cima — a Google, a Netflix, a Amazon — que ficaram com quase tudo. Com a IA será provavelmente idêntico: uma parte bastante significativa do valor e do impacto económico estará na camada aplicacional”, defende Ricardo Jacinto.

Para o managing partner da Shilling VC o risco para Portugal é “contentar-se” em ser a “tomada elétrica” da Europa: “alojar os data centers dos outros, criar alguns empregos e alguma receita fiscal, e deixar a propriedade intelectual acumular-se em quem constrói os modelos e as aplicações”, acrescenta o managing partner da Shilling VC.

“A ambição certa, por isso, não está tanto na infraestrutura em si, mas em fazer crescer as empresas à sua volta. É garantir que a próxima geração de empresas europeias de IA nasce, cresce e fica em Portugal, alavancada nessa infraestrutura, no nosso talento e na nossa academia”, afirma Ricardo Jacinto.

Para o managing partner da Shilling VC (unidade de Venture Capital da Draycott), Portugal “não vai ganhar” competindo em capacidade instalada com a Alemanha ou com os países nórdicos. “Ganhamos na camada de cima, com empresas que resolvem problemas reais dos clientes e criam barreiras de entrada duradouras, não com uma fina camada sobre modelos alheios”, esclarece Ricardo Jacinto. “Para isso, são precisos licenciamentos e ligações à rede rápidos, mas sobretudo capital, ambição, regulação inteligente e talento que retenhamos cá. A infraestrutura é a porta de entrada; o que conta é aquilo que construímos depois de entrar”, acrescenta.

O Jornal Económico



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