A Holanda é um país de grande tradição no futebol. Famoso também por formar treinadores de muita capacidade, alguns deles revolucionários da bola, como Rinus Michels e Johan Cruyff. Vista por quase todo mundo como “a melhor seleção que não tem título mundial”, a Holanda tem agora uma série de opções para substituir Ronald Koeman, que pediu demissão antes de ser demitido após a frustrante eliminação diante de Marrocos nos 16 avos de final da Copa do Mundo. Arne Slot (que saiu do Liverpool com um título surpreendente de Premier League), Erik ten Hag (grande trabalho no Ajax e muito criticado no Manchester United), Michael Reiziger (ex-lateral direito que vive até hoje na base/interinidade do Ajax), Patrick Kluivert (ex-centroavante e pai de Justin Kluivert, ele integrou comissões técnicas na Indonésia e em Camarões), Peter Bosz (domina o futebol holandês com o PSV nos últimos anos após muitas temporadas na Bundesliga) e Ruud van Nistelrooy (após o PSV, foi quebra-galho no Manchester United, passou pelo Leicester City e vinha auxiliando Koeman) são alguns dos nomes que estão sendo especulados para dirigir a Laranja agora. Em bate-papos e chats, torcedores saudosistas citam os nomes de lendas, como Ruud Gullit (dizem que teria vontade de assumir o posto), Frank Rijkaard (perdeu nos pênaltis a Eurocopa de 2000 em casa, foi bem treinando o Barcelona e pouco é falado atualmente) e Louis van Gaal (deixou o cargo de conselheiro da diretoria do Ajax e não tem muita saúde para retomar o trabalho na seleção), mas esses não estão cotados agora.
Quem eu sugiro para treinador da Holanda? Claro que Pep Guardiola, o mais bem-sucedido Cruyffista da história. Ele seria a melhor resposta após uma eliminação em que a Holanda não caiu como Holanda. Koeman foi medroso, covarde, e entregou a bola para Marrocos, colocou uma linha de cinco atrás e desmontou o meio-campo do time, que teve menos de 30% de posse contra o bom adversário africano, renegando assim a essência do futebol holandês. Joga quem tem a bola, já ensinou Johan Cruyff, inclusive para Guardiola. Mas será que o genial espanhol, que já disse querer um dia treinar uma seleção, aceitaria um convite da federação holandesa neste momento em que está livre para aceitar um novo projeto? Particularmente, eu acredito que não, mas entendo como algo obrigatório fazer ao menos uma oferta. O não você já tem, o que vier além disso é lucro. Guardiola já ganhou bastante dinheiro nos clubes milionários que dirigiu e pode se encantar pela proposta, pela filosofia, pelo conceito do futebol holandês que moldou muito o Barcelona de seu coração. “Não sabia nada de futebol até conhecer Johan Cruyff”, diz, humildemente, Pep, em um de seus livros. Carlo Ancelotti topou assumir o Brasil em crise para disputar uma Copa do Mundo e tem chance de vencê-la, o que o deixaria ainda mais destacado no topo dos técnicos de todos os tempos. Dizem que Jürgen Klopp pode assumir agora a Alemanha, o que seria mais um caso de treinador top partindo para o mundo das seleções. José Mourinho esteve perto de acertar com Portugal, mas o Real Madrid o levou primeiro. A Inglaterra também pegou um treinador de muito bom nível, o alemão Thomas Tuchel, que impressionou muita gente ao não levar alguns craques ingleses para a Copa e que pode, mesmo assim, ter sucesso no torneio que acontece neste momento na América do Norte.
A atual geração holandesa não é muito animadora. Possivelmente no próximo ciclo de Copa já não terá Virgil van Dijk e Memphis Depay, jogadores importantes para a equipe nos últimos anos. A Holanda (não vou ficar usando Países Baixos, ok?) não tem tido sucesso nas divisões de base, até hoje não ganhou Mundial nem no sub-20 nem no sub-17 (Marrocos sim) e mal tem disputado Jogos Olímpicos. Guardiola certamente trabalharia para a produção de novos talentos desde as “categorias de baixo”. Seria um projeto amplo de resgate de uma escola importante do futebol. E esse trabalho, claro, seria de longo prazo. Marrocos mesmo, o carrasco da vez da Laranja, fez um bom trabalho de garimpo e reforçou seu elenco com jogadores que até nasceram na Holanda e poderiam defender a equipe europeia. Um técnico como Pep certamente teria condições de atrair atletas de bom nível e desenvolvê-los na seleção, embora o tempo para treinar o time seja bem menor do que o de um clube, onde o dia-a-dia do treinador se vê com mais intensidade. Mas acho que o papo sobre Guardiola fica mesmo na utopia, no sonho, em uma vaga esperança de compatibilidade entre esse profissional tão admirado mundo afora com um ideal holandês que está perdido. Se essa revolução holandesa não tem mesmo como ser feita por Pep, há um outro nome que seria uma interessante e tremenda novidade no futebol mundial.
Sarina Wiegman, se não chega a ser oficialmente a versão feminina de Rinus Michels (até porque está cada vez mais difícil revolucionar o futebol), posa mesmo como a melhor treinadora de futebol do planeta há alguns anos. O trabalho que ela fez na seleção holandesa e depois na inglesa é espetacular. Você lembra de alguma seleção, grande ou não, do futebol masculino, com uma mulher no comando técnico? Imagina então o que isso significaria hoje, o impacto que isso geraria. E nem falo aqui muito em nome de uma bandeira, do movimento feminista etc. Sarina é tão ou mais competente do que qualquer treinador que está sendo cotado para a seleção da Holanda atualmente. Ela já tem uma carreira consolidada, ideias claras, proposta de jogo ofensivo. Inclusive ela já virou estátua na federação holandesa por bons serviços prestados. Como os clubes holandeses estão sem competitividade na Europa por razões financeiras, e as seleções dos Países Baixos (de forma geral) não têm conseguido vencer em campo outras forças do futebol (Koeman saiu sem vencer nenhum rival do top 25 do ranking da Fifa, um absurdo), só com criatividade e inovação, marcas holandesas, será possível reverter esse quadro. Colocar uma mulher à frente da seleção masculina vai suscitar uma série de questionamentos e vai alimentar um debate que é cada vez mais crescente na sociedade e no esporte. Isso já seria por si só algo positivo. Eu não acredito que Guardiola assuma a Holanda, já escrevi aqui, mas acho que Sarina, grande defensora dos direitos das mulheres e uma guerreira desde pequena (começou a jogar bola na Holanda com meninos quando isso era proibido nesse país tão liberal), aceitaria esse desafio. Capacidade e coragem ela tem de sobra.
Ainda estou de luto pela eliminação precoce da Holanda na Copa (imaginava que cairia diante da França nas quartas de final, sou realista), mas o prazer de torcer pela seleção laranja reside muito em esperar sempre algo novo e diferente dela. Desde o Carrossel, com a linha de impedimento, o perde-pressiona e o futebol total com a troca de posições dos jogadores, passando pela escolha de Van Gaal em cima da hora por Krul para pegar pênaltis contra a Costa Rica em 2014 ou mesmo a jogada ensaiada improvável no último lance do tempo normal contra a Argentina em 2022 (o que resultou no gol do limitado Weghorst), os holandeses pensam fora da caixinha também no futebol. É preciso agora ao menos pensar em Sarina.