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E o Campeão em edição especial até às 20h. Olhamos para o empate de Portugal na estreia no Mundial frente à República Democrática do Congo. Eu sou a Maria João Simões, comigo e com o Bruno Vieira Amaral estão o Pedro Henriques e o João Pinto. Bom dia, bem-vindos.
Bom dia.
Bom dia.
Bom dia.
Bom dia. Muitos meses de preparação, muitos elogios, mas a exibição ficou muito aquém das expectativas. Pedro, o que é que faltou ontem à seleção portuguesa?
Bom dia uma vez mais. Não quero tentar repetir muito aquilo que eu ontem disse à noite no Campeão.
Depois de umas horas de sono.
Exatamente. Mas basicamente, a frase que hoje me vem à cabeça, e até parece que está repetida em alguns locais, é que assim não vai dar Portugal. Isto pegando naquele mote que, desde essa tal preparação de muitos meses, parecia o “agora vai dar Portugal”. Eu acho que assim não vai dar Portugal. E quando o nosso selecionador Roberto Martins diz que a pressão de dizerem que vamos ganhar o Mundial nos tira do foco de ganhar o jogo, significa que ele, o selecionador, não está a aguentar, desculpem a expressão, a pressão de ter nas mãos provavelmente um dos melhores jogadores do mundo nas posições em que cada um joga. E daí, agora sim, vou repetir o que disse ontem à noite, olhando exatamente para esta não aguentar da pressão de ter tanta qualidade nas mãos, vou repetir aquilo que disse no Campeão Especial que ontem fizemos às 21 horas: estou com a ideia que Portugal é um Ferrari conduzido pela minha avó. Basicamente é isto. Portanto, ontem levamos um banho de realidade.
Pois foi.
E hoje começam a aparecer números. Claro que muitas das críticas estão centradas em torno de Cristiano Ronaldo, mas o problema, obviamente, é muito maior do que isso. Tem a ver, se calhar, com as substituições que aparentemente não foram feitas. Andamos sempre a queixar-nos das cargas que temos e depois temos cinco substituições para fazer e só fazemos quatro. E depois quando temos a fazer substituições muito tarde, se aqueles jogadores não estão a produzir aquilo que se pretende, não se pode estar à espera, tem que se mudar. Quer dizer, o Gonçalo Ramos, perante uma circunstância como aquela que nós estávamos a ver, precisávamos de marcar gols. Eu sei que não é por metermos cinco pontas de lança que vamos marcar gols. Há mais do que isso, mas o Gonçalo Ramos é um exemplo que entra muito tarde. Por que o João Félix fica no banco? Eles estavam fortes, muitas vezes com linha de cinco, com três médios ali à frente. Quer dizer, diz a teoria, e não sou treinador, que temos de jogar entre linhas, pelas alas não dá. Então se temos de jogar entre linhas, jogadores como o João Félix e o Trincão têm que ir para jogo. Eu acho que estas coisas parecem muito lógicas e quando um selecionador não esgota todas as possibilidades, fica com uma substituição por fazer, não consigo concordar, nem compreender. E termino com isto. Quer dizer, claro que centra-se muito em torno do Cristiano Ronaldo.
É inevitável.
E um dos números que deixa-nos a pensar é que o Diogo Costa fez 29 passes e o Cristiano Ronaldo fez 21 passes. O Diogo Costa, só para relembrarmos os mais desatentos, que é guarda-redes, tocou 37 vezes na bola e o Cristiano Ronaldo tocou 25. Alguma coisa se passa em relação a toda esta liderança e toda esta questão, porque, e agora sim termino, o Cristiano Ronaldo, antes de começar o jogo, fez aquilo que eu acho que um capitão e um líder faz sempre: vai ter com os colegas, abraça-os todos, dá-lhes ali um grande incentivo, sabe que as câmaras também estão focadas nele, naquele momento dos últimos sprints e depois o ir para a cabine ou para o túnel. Termina o jogo. É agora que o Cristiano Ronaldo tem que vir ao de cima e eu sou o maior defensor do Cristiano Ronaldo.
Sabemos.
Não pode bazar, não pode ir embora. Agora é que é de agarrar nos colegas, agora é que é de ir para os adeptos e tem que dar força. Portanto, há aqui coisas que não estão bem, estão muito más mesmo. Espero que este banho de realidade faça aquilo que aconteceu à Espanha em 2010 e à Argentina, que começaram a perder e depois foram campeões do mundo.
Bem, mas o que é certo é que vimos um Cristiano Ronaldo muito apagado em campo. João, estamos a sacrificar mais o mundial por causa do ego de CR7?
Bom dia outra vez. É uma pergunta difícil de responder, porque há aquele primeiro mundial em que ele vai em 2006, em que é o miúdo da equipa e brilha, é uma equipa fabulosa, consegue o segundo melhor resultado sempre de Portugal. E depois nos dois mundiais seguintes é um bocado o Ronaldo que leva a seleção às costas. E, portanto, se nós estamos a pagar com dois, ele também nos deu dois e as contas acabam por ficar saldadas. Não é tanto por aí. Aquilo que me parece é que o próprio Ronaldo, como dizia o Pedro, que dá incentivos, que abraça a malta, já não dá em campo mostras daquilo que realmente incentiva os colegas, que é: já não faz um passe direito, já não consegue correr para a frente, nem corre para trás, as receções não lhe saem bem, os posicionamentos não estão bons. Portanto, já dá mostras em campo de que está velho. O tempo passa para todos. E pronto, é mesmo assim. Está aí o Bruno Vieira Amaral. Ele vai se lembrar do Argel, que era um central do Benfica, que também era o senhor Força e o senhor Motivação. E ele batia palmas e gritava e fazia, mas depois lá dentro as bolas passavam todas e os jogadores não revêm liderança a um jogador que já não faz aquilo que tem que fazer de mais básico, que é jogar a bola. E, portanto, acho que é mais por aí. Não é tanto uma questão de ego, é mais uma questão de liderança no sentido de exemplo. E a primeira coisa que uma pessoa tem que fazer quando vê que já não dá, é dar lugar a outros. E o Ronaldo devia ter essa humildade.
Bruno, é inevitável compararmos a forma como o Messi se estreou no Campeonato do Mundo e a estreia do Ronaldo também subiu a fasquia, não é? Será que o próprio CR7 não sentiu também essa pressão?
Também deve ter sentido, sim, mas eu acho que até é cruel fazer essa comparação com o que joga Ronaldo com o que continua a jogar Lionel Messi.
Não dá para comparar.
Não dá.
São jogadores diferentes também.
Precisamente por isso. Então prefiro compará-lo com outros avançados. Comparar com Mbappé, com Harry Kane, com a exibição que ontem Harry Kane fez pela Inglaterra, com Erling Haaland, por exemplo, até com Quiñones, do México, que foi o melhor marcador da Arábia Saudita, para não se dizer que na Arábia Saudita não jogam nada, não vale a pena vir jogar. Há jogadores que estão a jogar lá e que são úteis nas suas seleções. Mas até o pior para o Ronaldo é comparar com o que ele fazia há uns anos. É verdade que ele nunca fez um grande mundial, mas se nós compararmos com o que fez, por exemplo, em 2018, em que marcou um hat-trick logo no jogo de estreia contra a Espanha e ainda marcou um gol contra Marrocos, eu acho que poderia ter sido o mundial do Ronaldo. Se nós compararmos com esse Ronaldo, é penoso para o próprio Ronaldo. Já ouvimos falar: “Temos os jogadores do meio-campo do Paris Saint-Germain”, mas olhemos para a frente do ataque do Paris Saint-Germain. Quem é que o João Neves e o Vitinha têm à frente? Não têm o Bernardo Silva, o Ronaldo, o Bruno Fernandes, que ontem não fez uma grande exibição, e o Pedro Neto. Têm o Dembélé, o Nkunku, o Kvaratskhelia. Parecendo que não, isto faz uma grande diferença. Como digo, acho que até é cruel para o Ronaldo estar a comparar com o que fez o Messi. Esta teoria que os defensores a todo o transe do Ronaldo fazem, a dizer que os companheiros de equipe não lhe dão a bola, não lhe passam a bola em condições. Basta ver os gols que o Messi marcou para acabar com essa ideia. Mas eu acho que nós estamos de regresso à discussão que já tivemos no Mundial do Qatar e no último Europeu. E não passamos disto. Fernando Santos acabou por ser despedido no final daquela competição. Andamos a discutir por que o Ronaldo é ou não é titular e que o Fernando Santos tirou o Ronaldo.
E a discussão vai continuar.
Eu acho que já nem vale a pena. Eu acho que todos temos de nos mentalizar que vamos levar com o Ronaldo até o fim.
Até quando ele quiser.
Quando ele quiser.
Roberto Martínez, na conferência de imprensa depois do jogo, disse que esta equipe é capaz de ganhar, como se viu na Liga das Nações. Mas Pedro, são competições com características muito diferentes. Pedro Henriques?
Sim, estava aqui a falar sozinho com os microfones ligados.
Fala conosco, partilha.
Exato. Eu aqui também vou fazer um pouquinho da defesa de Portugal neste sentido. Portugal habituou-nos a que quando a fasquia sobe e nós jogamos com seleções difíceis, aparentemente as Espanhas, as Franças, Alemãs, damos uma resposta. Nem sempre ganhamos, obviamente, mas damos uma resposta mais a essa altura. E que por vezes, naqueles jogos aparentemente mais simples, mais fáceis, umas vezes dizemos que estamos em estágio, outras vezes dizemos que estamos em preparação, outras vezes dizemos que para os jogadores não é motivante, etc., porque é fácil. Mas o fato é que não damos essas respostas tão assertivas, tão imponentes, como já vimos aqui seleções como a Suécia ou como a Alemanha, e outras que acabaram por não só ganhar, mas continuar a acelerar. E Portugal parece que tem essa maior dificuldade perante essas seleções. Agora, estamos todos à espera, e eu estou, acho que todos nós estamos à espera de uma reação. Vamos jogar com o Uzbequistão. Não sei se isso serve de bitola ou não, até porque a Colômbia ganhou três a um. O principal foco neste momento já não é a questão de passarmos em primeiro lugar ou não, que obviamente está completamente em aberto, assim ganhemos os dois próximos jogos, e significava ganhar à Colômbia, mas é sobretudo passarmos e sermos apurados. E portanto, eu acredito que esta realidade em que todos os jogadores, de repente, do banho do mar em que os jogadores estavam envolvidos para este banho da realidade em que agora tem relva, já não tem areia, faça com que desperte os alarmes e que, pelo menos, façamos estes dois jogos que nos faltam, como eles gostam de dizer, levantar a cabeça e, sobretudo, fazer um resultado condigno e uma exibição melhor. É essa a esperança que eu tenho.
Sim. João Pinto, não importa como começa, importa como acaba ou a forma como começa condiciona o resultado final?
Eu acho que só importa como acaba. Até aí concordo. O que é importante, o Pedro estava a falar na questão da praia e de meter os pés na areia. Interessa, às vezes, meter os pés no chão, porque temos que nos lembrar que se calhar este mundial também é o último em que o Bernardo Silva, o Bruno Fernandes, estão com saúde e com idade para ambicionarem mais qualquer coisa. Portanto, não é só a última dança do Ronaldo, é a última dança de mais uns quantos. E importa que, já que o Ronaldo não está a conseguir entregar em campo aquilo que quer, que sejam eles a acordar, porque a exibição deles também não foi extraordinária.
Bruno, o próximo jogo, como dizia o Pedro Henriques, é já na terça-feira, com o Uzbequistão. Perdeu há pouco com a Colômbia. Mas que alterações Roberto Martínez tem de fazer na equipa? Não sei se queres falar do Ronaldo.
Não, quero falar. Visto que Ronaldo vai jogar
Temos a certeza que o Ronaldo vai jogar, ao menos então que ponha João Félix, com quem ele tem rotinas da Arábia Saudita. Não se compreende que, jogando o Ronaldo, não se aproveita o jogador com quem ele jogou ao longo de toda a época.
Já existe aquela dinâmica.
Pelo menos isso. Pelo menos há esse contato, esse convívio, esse conhecimento entre os dois jogadores. Não compreendo como é que João Félix não entra ao longo de todo o jogo, 90 minutos, sem entrar em campo. Deixe-me dizer outra coisa. É verdade que o problema não é só o Ronaldo. Eu acho que nós não temos defesa para sermos campeões do mundo. E ainda por cima com a lesão do Rúben Dias, as coisas ainda se tornam mais complicadas. Eu acho que aí é outro dos pontos negativos, que não sei como é que Portugal vai resolver. Não sei se Rúben Dias já estará em condições de entrar no próximo jogo, mas parece-me que Portugal não tem uma defesa que lhe permita aspirar a ser campeão do mundo. E depois há a questão também de Bernardo Silva. Eu acho que Bernardo Silva naquela posição também não rende e, portanto, se não rende, é pôr lá alguém que renda. Mais vale entrar logo Francisco Conceição de início. Acho que algumas mudanças terão de ser feitas, porque o Uzbequistão, que perdeu com a Colômbia, mas atenção que ainda empatou o jogo ali em meio da segunda parte, só sofreu o terceiro gol já nos descontos. O Uzbequistão muito provavelmente vai defender, como tem defendido outras equipes contra Portugal, e Portugal tem sempre muitas dificuldades contra equipes muito fechadas.
Quer vir treinar Portugal?
Dispenso essa tarefa.
Antes de acordar às 5h00.
Mas acho que Roberto Martínez Tem, obrigatoriamente.
Vamos às notas. Quem é o vosso campeão desta estreia da seleção no Mundial? Pedro Henriques.
Eu vou dar a nota mesmo pra seleção. Espero que já tenha acabado o estágio na areia. Espero que comece o estágio na relva, conforme eu disse. Nota 8 pra seleção. Acordamos com um verdadeiro banho de realidade e espero que agora a rapaziada mude o chip, mude a atitude, e quando digo atitude não é aquilo que eles querem e que pensam, é aquilo que fazem, pra mim é o mais relevante. E portanto, uma nota negativa pra seleção e pro que fez pra esta entrada, porque acho que a palavra-chave, pelo menos pra mim, obviamente, depois de ter recordado e ter meditado sobre tudo aquilo que vi ontem, é decepção, e estou muito decepcionado com aquilo que aconteceu. Espero que isso sirva também de mote para aquilo que vem na terça-feira e que a partir de agora seja sempre a somar e a mudar exatamente a postura, a atitude, o comportamento, a realidade. Deixem lá a areia, vão lá pra relva, que é lá que se joga.
Esperamos que assim seja. João Pinto, o teu campeão.
O meu campeão, pra começar, é o Pedro Henriques, porque ele medita. Não fazia ideia que ele meditava.
E durante a noite. A dormir.
Se vocês saberiam que havia meditação. Não fazia ideia.
Que nota dá ao Pedro Henriques?
Exato. O Pedro Henriques leva sempre 20. Aliás, quem medita, seus males espanta, não é? Assim, qualquer coisa. Exato. Mas sim, 8 pra seleção. Vamos acordar, pessoal. É pra jogar a bola.
Bruno.
Eu vou dar uma nota negativa ao Roberto Martínez, até pelas explicações que ele depois deu na conferência de imprensa, a dizer bem que Portugal fez o mais difícil, que era começar bem, mas que isso foi mal, porque o gol acabou por, de alguma forma, adormecer os jogadores, as emoções tomaram conta dos jogadores. Quer dizer, Portugal não podia ter começado melhor, de facto. Começou com um gol. Era só aproveitar. Quer dizer, quando marcar um gol aos primeiros minutos do primeiro jogo no Mundial é mau, então o que é que é bom? Não sei.
Que nota dá?
Eu vou dar um 2 ao Roberto Martínez.
E o “Campeão Especial” fica por aqui. Obrigada ao João Pinto e ao Pedro Henriques por estarem conosco neste rescaldo do empate de Portugal no primeiro jogo do Mundial.